Agricultor Contendense criou ONG para limpeza de rios

Após a morte do fundador, porém, iniciativa espera por apoio para poder continuar

Eco Rios

Um dos rios que corta a região passa dentro das terras de Cleonice e está em processo de assoreamento. Foto: Alex Wojcik.

Agricultor, Iolando Wojcik nunca se conformou com os enxames de mosquitos que lhe atormentavam dia e noite na lavoura e em casa. Ele desconfiava que algum tipo de desequilíbrio ecológico poderia estar acontecendo na vizinhança, mais precisamente no distrito de Catanduvas do Sul, área rural de Contenda. Dito e feito. O problema estava nos rios, que, assoreados, viraram criadouros do inseto.

Nascia, no ano de 1992, a organização não governamental ECO Rios, uma iniciativa popular com a cara e a coragem de seu fundador e voltada para a conservação dos recursos hídricos da região.

Na bronca porque muitos agricultores não faziam o manejo adequado da lavoura, o que faz com que o excesso de terra e saibro do arado escorra para as ruas e para dentro dos rios a cada chuva forte, Iolando volta e meia entrava em conflito com os próprios vizinhos, pois desafiava interesses de outros agricultores como ele na tentativa de reestabelecer o equilíbrio ecológico local.

“Ele descobriu que o mosquito se criava na água corrente e no capim. Por isso criou a ONG para limpar os rios”, explica Cleonice Mioduski, viúva de Wojcik. O agricultor morreu em outubro do ano passado, em decorrência de um câncer no intestino.

Alagamentos

Para solucionar o problema dos alagamentos, frequentes na localidade, Wojcik passou a abrir valas na beira da estrada, evitando que a água com terra chegasse aos rios. Isso diminuiu o assoreamento dos cursos d’água e reduziu o número de alagamentos na região.

Mas o agricultor precisou encarar dificuldades. Recebeu ameaças dos que não concordavam com seu trabalho. “Em 2002, queimaram o nosso barracão. Isso foi poucos dias depois de denunciarmos um agricultor por problemas de assoreamento. As autoridades vieram, multaram a pessoa e o assunto foi para a Justiça”, conta Cleonice.

O legado deixado por Iolando ainda repercute na região, mas a viúva do agricultor não sabe até quando será possível manter o trabalho da ONG. Ela tem o interesse de continuar, mas não encontra apoio do poder público – sem falar no risco de sofrer novas ameaças. “Por enquanto está tudo parado. Para mim, sozinha, fica difícil dar continuidade no trabalho dele, mas a minha vontade é sim seguir o que ele sempre quis. Penso em procurar a Prefeitura, porque é um bem para todos”, diz.

Enquanto isso, um dos rios que corta a região está em processo de assoreamento. O lodo trazido pelas águas se avoluma no fundo de um lago, localizado dentro das terras de Cleonice. Segundo o agricultor Djaine Albino Cfierzoski, 45, amigo de Iolando e que pediu ajuda a ele para limpeza de rios em sua propriedade, o processo se repete em outros cursos de água. O manejo inadequado do terreno, com o uso máquinas que revolvem a terra, é o principal problema. “Eu faço plantio direto, com palha no chão, sem mexer na terra. Mas nem todo mundo faz isso. Cada um tinha que ter consciência de que meio ambiente não é brincadeira”, alerta.

A prefeitura de Contenda informou que sempre considerou o trabalho da ONG importante e que pretende dar apoio às iniciativas no que for possível.

Falta fiscalização por parte do poder público sempre foi o maior problema, diz viúva

A falta de fiscalização por parte do poder público para impedir que os agricultores danifiquem o meio ambiente e provoquem o assoreamento dos rios sempre foi uma das reclamações de Cleonice e de Iolando.

Por maior que fosse o esforço do agricultor, as denúncias nem sempre surtiam efeito. “Não tem fiscalização, essa é a maior dificuldade. O Iolando tirava foto dos rios, pegava nome de quem fazia isso, levava para as autoridades, mas eles quase não vinham fiscalizar”, reclama a agricultora.

Sem registros

O Instituto Ambiental do Paraná (IAP) diz que trabalha com denúncias recebidas e que o corpo técnico do órgão não tem registros de denúncias na região de Contenda. Segundo o IAP, as denúncias podem ser feitas pelo telefone (41) 3213-3443.

Da redação com Gazeta do Povo